Simbolismo da ressurreição

A leitura de Apocalipse 11, sobre as “duas testemunhas”, possui um número de aspectos simbólicos em relação ao simbolismo solar, que se apresentam de modo velado. Esse simbolismo solar velado é intencional, e na verdade uma espécie de continuidade velada com ao menos uma outra passagem (Apocalipse 8); também ao menos uma em Daniel 8.

Os aspecto velado do simbolismo solar decorre do fato de a dualidade das testemunhas se opôr analogicamente à univocidade da “grande cidade”. Tanto o simbolismo da “cidade sagrada” quanto o simbolismo do sol são variações do simbolismo do centro. E se as duas testemunhas se opõe analogicamente à cidade, significa isso (enquanto aplicação) que as testemunhas não parecerão ser reis, e sim a cidade parecerá se associar ao simbolismo real (que decorre do simbolismo solar); quando na verdade elas serão de fato reis, no sentido de representarem o eixo político e iniciático do mundo. A dualidade, assim, é um artifício narrativo para ilustrar o obscurecimento contingente ou histórico do caráter das testemunhas, e a univocidade da grande cidade é um artifício narrativo para ilustrar a aparente ilustração com que a grande cidade parecerá ser tomada pelos habitantes da terra.

O caráter analógico dessa oposição é reforçado pelo fato de as duas testemunhas serem chamadas as duas “oliveiras” e os dois “candelabros” que permanecem “diante do Senhor da terra” (Apocalipse 11:4).  A oliveira é um símbolo da pureza e da iniciação; por isso o óleo de oliveira é usado no sacramento da Confirmação, para sinalizar o fortalecimento do fiel com o Espírito Santo. Também, segundo o próprio Talmude promoveu, o óleo de oliva é aquele em que o fogo queima mais intenso. A oliveira representa a iniciação sob o aspecto da sua acumulação e virtualidade (Beemote), e o candelabro sob o aspecto da sua dispersão e actualidade (Leviatã). O próprio se associar a uma árvore, vista desde o testemunho divino, ou “diante do Senhor da terra”, é uma alusão ao simbolismo da “árvore da vida”, que por sua vez se associa à ideia de analogia; porque esse simbolismo apresenta a árvore e o seu reflexo invertido sobre as águas, sendo a inversão uma propriedade da relação analógica. Essa analogia assinala que desde o testemunho divino o que permanece meramente potencial e discreto (oliveira) já tem desvelado o seu efeito ou caráter agente (candelabro). e conversivelmente o que é já aparente e efetivo desde o ponto de vista terreno (candelabro) oculta um aspecto discreto potencial só visto desde o testemunho divino (oliveira). Assim, a dualidade das testemunhas, em certo sentido, é apenas uma espécie de contingência histórica e “miragem”, tanto quanto as imagens respectivas da oliveira e do candelabro, guardando certa correspondência com o sacerdote e o rei, indicam uma unidade de fundo nas duas testemunhas; de vez que o sacerdote é por definição um rei ou “guerreiro” em estado latente, tanto mais capaz de se tornar um homem de ação quanto mais se tiver concentrado e preparado (iniciação) para se voltar para o mundo secular.

Se a dualidade e divisão das testemunhas é de algum modo uma aparência, a univocidade da cidade também o é (analogia). A sugestão discreta de a cidade se associar ao simbolismo solar, indica o fato de a cidade na verdade representar um eclipse (que necessita de uma composição, ou sobreposição), precisamente o oposto do sol. A escuridão da cidade é um modo simbólico de corroborar a ideia de as duas testemunhas “atormentarem” os habitantes da terra; isto é, pelo mecanismo visual do contraste, ou o jogo de luz e sombra.

É dito sobre as duas testemunhas, que elas hão de profetizar “mil duzentos e sessenta dias, vestidas em pano de saco” (Apocalipse 11:3). Esse número é parecido com os “mil duzentos e noventa dias” dados no livro de Daniel, em certa passagem que Santo Afonso de Ligório notoriamente associou à grande apostasia apocalíptica (Daniel 12:11). A descontinuidade desse número é facilmente atribuível ao fato de Daniel estar referindo o número de dias desde o ser levado embora o “contínuo sacrifício” e o ser estabelecida “a abominação à desolação”. Desde essa interrupção ritual e decadência espiritual, um certo número de dias é natural se requeira até o começo da profecia das dua testemunhas. Se esse número de dias é associado a um número de anos, a diferença de trinta anos sugere o mesmo número de anos que precederam o ministério público de Jesus Cristo desde o seu nascimento. E o essas testemunhas serem um “tipo” imitador do exemplo de Cristo é indicado em Apocalipse 11:8.

Esse número de dias totaliza cerca de três anos e meio. Esse número de anos guarda paralelismo com o período desde a morte das testemunhas até a sua ressurreição, a saber, três dias e meio (Apocalipse 11:9). De modo ainda mais vago, sem alusão a dia ou ano, mas simplesmente a “unidade de tempos”, Daniel fala a respeito de “um tempo, e tempos, e metade de um tempo.” (Daniel 12:7.)

Em Apocalipse 8:1 é referido como, ao abrir o sétimo selo, houve silêncio no céu “por assim dizer, por meia hora”. O simbolismo do sétimo selo está ligado ao simbolismo das duas testemunhas, e de Daniel 12:7.

A primeira menção ao abrir algum selo, como eu examinei detidamente antes, não usa a expressão “primeiro selo”, ao contrário dos demais casos. No texto linkado é explicado que isso tem a ver com o primeiro selo ser na verdade o sétimo selo, assim como o sétimo dia da criação, enquanto dia de descanso, é o primeiro dia; porque o descanso divino é eterno e independente de tempo e lugar; está acima da criação enquanto contingência. Isso também é expresso pela sétima cor (branco), das seis cores principais que compõe o esquema circular de cores ordinárias principais, não aparecer na decomposição espectral do prisma. Na verdade o branco é uma cor e uma ausência de cor. Como o sétimo dia da criação é o princípio e a síntese ulterior universo (representado pelos quatro pontos cardeais mais a dualidade da altura, totalizando seis), o branco é o princípio e a síntese das cores, e se apresenta acima delas ontologicamente. Essa ambiguidade da cor branca, ou do sétimo dia, (elementos associados ao número sete); guarda correspondência com a ambiguidade das duas testemunhas, no se associar à potencialidade (oliveira) e actualidade (candelabro). Sucede que “um tempo, e tempos, e metade de um tempo”; cerca de três anos e meio; e três dias e meio; como sugestões associadas a metade do número sete; e simultaneamente associadas às duas testemunhas; perfeitamente guardam correspondência com o caráter dual ou dividido das testemunhas ser uma mera aparência.

Em adição a isso o período de duração do “silêncio celeste”, em Apocalipse 8:1, não é descrito precisamente como meia hora; em cujo caso seria uma duração de meia hora, ou trinta minutos. Foi dito apenas “por assim dizer, meia hora”; o que simultaneamente sugere; 1) a possibilidade de ter sido ligeiramente mais, totalizando cerca de metade de setenta minutos (em alusão ao número sete), isto é, trinta e cinco minutos; 2) não se trata de que foi “cerca de meia hora”, mas sim associável a “cerca de meia hora”, pois a ambiguidade relativa à dualidade das testemunhas pôde tornar a duração associável à metade da duração; assim como o número de selos pôde ser associado a sete, quando na verdade tal é ambíguo (o primeiro selo é o sétimo selo).

Nesse sentido o ministério das duas testemunhas é associado a certa incapacidade terrena para enxergar a unidade entre “contemplação” e “ação”; de modo que a única univocidade terrenamente acessível sem problematicidade aparente é aquela da descida, espiritual, representada pela “grande cidade”. É precisamente dessa oposição entre dualidade e univocidade que Daniel parece falar em Daniel 12:5-13. O associar o surgimento histórico dessa dualidade à interrupção do “sacrifício contínuo” e à “abominação à desolação”; faz todo o sentido; levando em consideração que o sacrifício ritual representa simultaneamente uma gratificação intelectual (sacerdócio) e uma gratificação política (ofício real), no sentido de uma promoção do bem comum. Assim, se o sacrifício ritual significa a indistinção entre contemplação e ação, a sua interrupção cria a distinção e a irreconciliação, ao menos aparente, projetando sobre a história humana uma espécie de bifurcação, precisamente aquela (“mundo” como ideia e “mundo como rapto”) que obcecava Bruno Tolentino.

O não se sentir confortável com essa bifurcação guarda correspondência com aqueles que Daniel refere como “escolhidos” (Daniel 12:10) serem “provados por fogo”.

O título do artigo é “Simbolismo da Ressurreição” precisamente porque a ambiguidade ou dualidade da condição das testemunhas guarda correspondência com a dualidade entre a morte e a ressurreição. A ressurreição das testemunhas pode ter um sentido intra-cósmico, e de fato tal é sugerido na própria passagem a respeito delas; e tal sugere, como camada de sentido possível, que esse “reviver” corresponde a uma síntese ou subsunção iniciática desde uma mortificação parcial. Assim, a condição latente e potencial (oliveira) se torna actual (candelabro), como a análise mortificante é sobsumida em uma síntese.

 

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Simbolismo dos Cavaleiros do Zodíaco

Em Apocalipse 11:8, é referido como as “duas testemunhas” apocalípticas terão os seus corpos jazendo nas ruas da grande cidade que, espiritualmente, se chama “Sodoma e Egito”, “onde seu Senhor também foi crucificado”. Ora, o termo “cidade” significa precisamente, etimologicamente, a ideia de “jazer”. Daí que a “cidade” seja o centro do “Estado”, porque supõe um estado ou uma condição. Também o termo cidade sugere a ideia de “cristalização”, “arquitetura” e “culminação”. Essa culminação é evidentemente pejorativa, e a culminação de uma “descida”. Mas a ideia de cume é contraditória com a ideia de descida.

A cidade também é uma alusão ao simbolismo do “centro”, e portanto ao simbolismo solar, o centro da manifestação do mundo.

Essa oposição entre cume e descida supõe uma relação analógica entre as “duas testemunhas” e a “cidade”, ou os habitantes da terra que observam os seus corpos. Diante da morte das testemunhas os habitantes da terra se “alegram” ou celebram a própria vida. As testemunhas atormentavam ou “”mortificavam” os habitantes da terra. Pela determinação analógica, entretanto, ao serem mortas, como se tornaria logo mais manifesto, foram as testemunhas que ganharam a vida; e os habitantes da terra ao se firmar na própria vida, ganharam a morte pelo terremoto ou se mortificaram pelo medo. O ter um décimo da cidade caído pelo terremoto é uma alusão à impossibilidade de plenamente se chegar à culminação visada; porque o número dez é conversível com a ideia da plena manifestação (qual classicamente ilustrado pelo simbolismo do tetraktys). O número de mortos no terremoto, sete mil, também é uma corroboração disso; porque o número sete é alusivo da síntese ou da conclusão no transcender um desenvolvimento particular.

A frustração da “grande cidade” diz respeito ao fato de a descida infernal significar uma descida; do plano qualitativo ao plano quantitativo; desde o polo da essência até o extremo mais inferior da substância; desde o mais sagrado até o profano; que só pode ser realizada em um plano “infra-humano” ou “infra-cósmico” incompatível com a modalidade de existência do mundo terreno, carregado como é, marginalmente, de determinações qualitativas. O total vazio, e a total negação de toda verdade absoluta, só pode ser uma tendência, não importa o qual avançada esteja no seu estágio de realização.

A esse respeito é significativo que o seriado animado Cavaleiros do Zodíaco, tenha como seu centro narrativo precisamente a confrontação de certos protagonistas com doze “cavaleiros de ouro” que guardam uma passagem; para fins de salvar a “deusa da sabedoria” de uma descida anímica permanente a um abismo infernal. Os Doze cavaleiros de ouro, sendo relativos às doze constelações zodiacais em torno das quais o sol percorre anualmente, são um simbolismo solar. Como o simbolismo do sol, qual a coroa de ouro, é um simbolismo da realeza; a confrontação dos cavaleiros de Atena com os cavaleiros de ouro é uma variação do simbolismo do “testemunho dado ante o governante” (Mateus 10:18-20). Esse testemunho é precisamente aquilo que as “duas testemunhas”, além dos fiéis de modo geral, realizam; uma vez que a “grande cidade”, sendo uma variação do simbolismo do centro, é conversível com a ideia do sol e do governante. O testemunho das duas testemunhas é precisamente relativo à “culminação” infernal que a cidade representa; enquanto os cavaleiros de Atena intencionam impedir a queda infernal da sua senhora, e estão inclinados a alardeá-lo diante dos cavaleiros zodiacais, explicando que ouve uma inversão de papeis, e os doze estão se opondo precisamente a quem deveriam servir; isto é, o que julgam ser uma culminação é uma descida ou degeneração.

As duas testemunhas são, desde o paralelismo da grande cidade com Sodoma e Egito, comparadas a duas duplas de indivíduos. Em relação a Sodoma, são comparadas aos dois anjos que visitam Ló antes da destruição da cidade. Segundo Santo Agostinho, esses dois anjos são anjos “carregando” duas das três Pessoas Divinas (uma Pessoa para cada anjo) que haviam tido com Abraão logo antes. Essas duas pessoas divinas são enviadas, porque das três apenas duas, segundo Agostinho, se diz que são “enviadas”; a saber, o Filho e o Espírito Santo. Desde o paralelismo de 1 João 5:8, com as testemunhas terrestres, o Filho guarda paralelismo com o mundo psíquico (água) e o Espírito Santo com o mundo sensível (sangue). Uma das testemunhas se apresenta associada mais à composição e à substância (sangue) do que à unidade e a essência (água); desde uma unidade de fundo entre esses dois planos, que são um com o plano do espírito (o Pai). Essa ambiguidade entre mundo sensível e psíquico guarda correspondência com a ambiguidade entre exoterismo e esoterismo; e também com a ideia do feminino, ou da intermediação mariana; isto é, com a ideia de chegar ao centro (o Pai, que corresponde ao “espírito” das três testemunhas terrestres) desde uma margem ou via mais segura e dissipadora do risco de escândalo. Daí a ambiguidade, e unidade de fundo, entre o mundo sensível e o seu simbolismo de fundo desde o plano psíquico.

Essa ambiguidade também guarda correspondência com os dois aliados Moisés e Aarão, no “dar testemunho ante o governante” do Egito. A passagem em Mateus 10:18-20 sobre esse testemunho alude à ideia de ele ter de ser dado com certa inadvertência marginal, ou sem o cuidado de um perfeito controle sobre a sua consecução, desde o auxílio do Espírito. Assim, Aarão se assemelha mais ao polo sensível, recebendo o testemunho desde Moisés, isto é, indiretamente ou desde uma fonte mais próxima da essência ou da intelecção. Isso guarda perfeita correspondência com as figuras respectivas do “sacerdote” (Moisés) e do “rei” (Aarão). É acidental a respeito que Aarão seja um símbolo do sacerdote, assim como é acidental que as duas testemunhas também guardem certa correspondência com a ideia de “mundo sensível” e “espírito”, em vez de “mundo sensível” e “mundo psíquico”; porque o simbolismo pode manipular um ou outro ponto de vista sem contradição, e como mera camada adicional de sentido. Mas há nisso um mistério e um paradoxo. O contexto de Mateus 10:18-20 não é o de um dar testemunho ao governante de igual para igual, governante ante governante, e sim um súdito ou estrangeiro ante o governante. Do mesmo modo, se as testemunhas são um sacerdote e um rei, o primeiro sendo um rei em estado latente, como pode ser que eles sejam as testemunhas ante o governante? Esse mistério é explicado, ao menos em parte, pela ideia de que há uma relação analógica entre as testemunhas e a cidade, ou os habitantes da terra, assim como existe uma relação analógica entre a ideia de culminação e descida. As testemunhas, “vestidas de pano de saco”, parecerão o contrário do que os habitantes da terra julgarão que seja um governante no sentido ordinário; quando na verdade elas serão os governantes da terra desde o certo ponto de vista; enquanto que a besta a ascender desde o abismo e que fará guerra com elas, as vencerá e matará, essa besta parecerá ser um governante, mas será apenas uma fachada de coisa positivamente dada, encobrindo a desordem. Isso guarda perfeito paralelismo com a ideia de que a descida parecerá uma culminação, e a culminação uma descida.

A analogia é ainda mais profunda. As testemunhas são em número de dois, e isso indica, sob algum aspecto, a ideia de divisão e oposição interna; enquanto a cidade, associada ao simbolismo do centro, indicará a ideia de indivisão e univocidade. Ora, a oposição entre rei e sacerdote é dissipada, como aquela entre o mar e a estrela (análise e síntese, prática e teoria), pelo “terceiro elemento oculto”, o deserto ou a mortificação. A mortificação das testemunhas vai neutralizar o seu caráter de algo associável á divisão ou oposição interna. De outro lado, e por analogia, a indivisão e univocidade aparente da cidade virá associada à aversão à mortificação. Se a divisão das testemunhas guarda uma indivisão de fundo; a indivisão a cidade guardará uma divisão ou oposição interna, de fundo. Se trata de um simbolismo a retratar a ideia uma situação, desde o ponto de vista terreno, hipnoticamente indutora de uma ilusão.

A situação das duas testemunhas guardará certa correspondência com a personagem Atena, de Cavaleiros do Zodíaco. Quando atingida pela flecha, e tendo a alma rumando para um abismo anímico; ela teve de aguardar que os seus cavaleiros, em situação de desvantagem aparente dramática, promovessem o seu “testemunho ao governante”. No plano sensível-manifesto (correspondendo ao sangue e ao “rei”), ela permaneceu durante esse curso imóvel e de muitos modos inerme; enquanto no plano psíquico mais sutil (correspondendo à água e ao sacerdote) se encontrava em movimento. De modo paradoxal em relação à sua inação e acometimento inadvertido nos dois planos, a sua existência continuamente desencadeava os mais graves acontecimentos. Em adição a isso, assim como as testemunhas, mortas eventualmente, experimentaram a ressurreição e a ascensão ao céu; a personagem Atena recobrou a condição consciente e subiu desde o abismo próximo em um estado “resplandecente” ou ressurreto, e ascendeu sem oposição as escadarias das casas zodiacais. Enfim a glória que estava escondida desde uma inversão satânica e aparente da ordem das coisas foi revelada de modo inequívoco. O terremoto, associado à ressurreição das testemunhas, tem como camada de sentido uma mudança política.

Uma das coisas mais curiosas a respeito desse antigo desenho animado, é que a narrativa a respeito da subida das doze casas zodiacais é a única linha narrativa que aparenta ter caráter “central” na história; tudo mais sendo mais ou menos sugestivo de um curso derivativo caótico e profano. A história dessa subida das Doze Casas era desde o início, como o próprio título em português do desenho sugere, a essência da narrativa. Isso assinala a veracidade do possuir o rearranjo grotesco-ficcional de noções metafísicas um poder secular virtual sem o qual o mundo secularizado não pode passar.

P.S.: Um ponto adicional a respeito da inversão aparente pela qual, das duas testemunhas, o rei (atuação sensível) parece mais inerme que o sacerdote (atuação psíquica); é que essa inversão é alusiva da modalidade de atuação mais adequada ou própria à situação apocalíptica na qual as duas testemunhas devem atuar.

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Simbolismo dAs Mil e Uma Noites

As Mil e Uma Noites, aparentemente um dos principais achados de certas tendências orientalistas primitivas (tendo provavelmente influenciado Lord Byron); foi pouco (na verdade nada) discutido por aquilo que vim a conhecer de René Guénon.

Tal me parece surpreendente porque um exame cauteloso da narrativa intrigante e não raro próxima da indecência, desse clássico condensador do folklore oriental (e de todo o Oriente); reflete precisamente o que Guénon disse sobre o folklore. A saber, ele disse que tais narrativas não são “populares” no sentido de terem sido originariamente da responsabilidade do povo, ou fruto da sua criatividade; mas são populares e identificadas com o fascinar a imaginação popular porque por traz da camada de sentido mais superficial, um sentido esotérico interno que se pode pressentir foi embutido de modo deliberado e para fins de que alguém em período oportuno (e menos degenerado) tenha os meios de descompactar o que foi escondido e velado.

Como a narrativa de Herói, As Mil e Uma Noites propõe uma espécie de prefiguração apocalíptica; e a estrutura narrativa, por isso mesmo, não poderia ser mais atual; porque constitui genuinamente a imagem arquetípica do embate de forças que se vai desenvolver de modo irrestritamente acirrado quando do fim do mundo; assim como, desde certa imagem guenoniana, o fechamento de um ciclo se assemelha à queda de um objeto: cada vez mais rápido o objeto cai, e cada vez menor é o conjunto de forças naturais (como o atrito do ar) capaz de lhe opôr resistência. É relativamente indiferente quão próximo do fim se vive, ou que sobrevida possa ainda restar; desde que se compreenda que, essencialmente, se está em plena descida e ela se tem acirrado.

O primeiro aspecto se destacando na narrativa desse clássico oriental é a ideia da surpresa ou admiração desencorajada dos dois reis irmãos ante a infidelidade e lascívia adúltera de suas esposas, e no caso de um deles, concubinas. A filha do Vizir, Sherazade, possui uma relação analógica com essas mulheres incapazes de refrear impulsos de ordem tão baixa e dispersiva. Sherazade se manteve oculta ou em cautelosa discrição, as esposas e concubinas do reino de Sherazade cometem adultério ao ar livre e com frequência. A concentração de Sherazade é voltada a toda sorte de estudos e especulações; de modo que há um paradoxo na sua conduta; porque a concentração é alusiva da unidade ou da simplicidade, e a multiplicidade de estudos e especulações é alusiva da multiplicidade. A dispersão sensível de esposa e concubinas é voltada para o mais monótono e estéril interesse sensível; de modo que há um paradoxo na sua conduta; porque a dispersão é alusiva da multiplicidade e da quantidade, e um interesse invariável e monótono é alusivo da unidade ou simplicidade. A oposição entre Sherazade e as esposas e ou concubinas é a oposição entre qualidade e quantidade, entre anonimato qualitativo e anonimato quantitativo; e entre unidade qualitativa e unidade meramente quantitativa. A superfície dessas duas unidades é a mesma, por isso Sherazade tem de usar de estratagemas para que haja tempo suficiente para demonstrar que por traz da sua aparência externa de unidade quantitativa, há uma unidade qualitativa.

A impressão de que o mundo, ou as mulheres (que são apenas uma figura da humanidade desde o simbolismo do “ovo do mundo”), é estéril de qualidade, e carregado apenas do relativo à quantidade; é um sentimento desencorajador apocalíptico; cujo efeito foi precisamente a promoção da interrupção geracional (o assassínio das esposas após a primeira noite de coabitação), interrupção simbólica que significa não apenas a esterilidade iniciática, mas uma espécie de “desilusão” quanto à existência mesma de alguma iniciação; a qual desilusão desemboca precisamente na literal interrupção do curso intergeracional.  Ao se dedicar aos estudos e a especulações (que mostram precisamente um universo tornado invisível de possibilidades humanas qualitativas) enquanto o mundo à sua volta entra em franco colapso e desordem; com o sultão praticando o assassínio massivo de donzelas e ninguém possuindo meios de opôr nada à impressão do colapso espiritual que disparou essa reação (tal simbolizado pelo ninguém reagir à matança); Sherazade se assemelha ao personagem de Herói, “Espada Quebrada”, que continua a praticar caligrafia na escola enquanto todos se dispersam por causa da chuva de flechas que devasta o recinto.

Se a Meretriz Apocalíptica se opõe ao Leviatã como efeito inadvertido dele, e humilhação de si; de outro lado há certa figura oposta à Meretriz que é a sua versão não pejorativa; a saber, a mulher “vestida do sol” (Apocalipse 12:1). Na verdade o elemento que configura uma dualidade enquanto associada ao Leviatã é o Beemote, uma criatura semelhante ao hipopótamo. Enquanto o Leviatã representa o aspecto dispersivo e potencialmente ilusório (portanto potencialmente pejorativo) do curso iniciático, o Beemote representa o aspecto concentrador e potencialmente patético ou relativo à inação (portanto pejorativo) do curso iniciático. O Leviatã no seu sentido mais elevado significa a Serpente de Bronze que Moisés ergue no deserto; o Beemote no seu sentido mais elevado significa precisamente a concentração discreta, protegida nas sombras, que marcou a biografia terrena da Virgem Maria. O dois aspectos elevados dessas criaturas sobrenaturais são na verdade dois momentos distintos da atuação mariana (que representa o iniciado), de vez que o se associar ao simbolismo solar, enfatizado pela coroa de doze estrelas (que é um número relativo ao curso anual do sol) em Apocalipse 12:1, associa Maria ao Leviatã enquanto associado igualmente ao simbolismo solar. Assim, a atuação feminina enquanto associada seja à concentração (a preparação iniciática discreta) seja à dispersão (o se apresentar diante do rei como noiva e esposa, usando toda astúcia para ganhar o seu favor e ordenar todo o reino) são dois momentos distintos de um curso com uma unidade de fundo.

O se dirigir ao rei, da parte de Sherazade, guarda certa correspondência com Mateus 10:18-20, a respeito do “dar testemunho ao governante” sem pensar naquilo que se vai dizer, mas esperar pela atuação do espírito. Enquanto esteve na presença do rei Sherazade não deu mostra inequívoca de esforço prestidigitador; mas desde a sua astúcia provavelmente deixou muito do seu plano ao sabor do momento, para se calibrar conforme o testemunho, em vez de ter um discurso pronto de antemão; sendo tal o curso de ação mais seguro. Um pouco de desorganização em tudo é uma profissão de não projetar sobre o plano sensível profano uma ordem que está na apreensão sintética do plano suprassensível. Essa é uma das sutilezas da narrativa que permanecem difíceis de apreender sem detalhada atenção.  Uma sutileza que decorre da própria vulnerabilidade atraente que está em se colocar na condição em que deliberadamente se colocou, da parte da protagonista — ao se casar com o sultão.

É desconcertante que As Mil e Uma Noites seja uma narrativa carregada de simbolismo ao ponto do quase-inabarcável, e tal assunto seja tão pouco observado.

Recuando um pouco disso, é curioso que As Mil e Uma Noites guarde correspondência com um folklore tipicamente ocidental, a saber, a história “A Bela e a Fera”. Entretanto, certas referências a respeito das escritoras que popularizaram o conto desde o séc. XVIII não parecem apresentar a história qual a Disney o fez; e desde que eu não tive tempo de examinar as histórias “originais”, eu me detenho na história qual o entretenimento de massas contemporâneo apresenta. O príncipe, por exemplo na versão cinematográfica mais recente de A Bela e a Fera, era o herdeiro de um reino que se afigurava o coração de um vasto domínio; mas a maldição que caiu sobre ele fez que esse domínio desaparecesse da memória geral. Ele se tornou uma “besta” e o seu séquito imediato e numeroso foi transformado em objetos domésticos. Tudo por causa do falhar em ver para além das aparências, isto é, para além da superfície de uma unidade. Se trata da indistinção inadvertida entre unidade quantitativa e unidade qualitativa.

É essa mesma indistinção que faz que as pessoas se impressionem hipnotizadas por acusações contra “seitas” e o perigo do pertencer a elas. Ora, a definição correta de uma seita (nesse sentido pejorativo) é simplesmente “falsa iniciação”, mas os indivíduos que usam esse termo pejorativo como auto-defesa e gatilho auto-hipnótico não admitem que possa existir uma iniciação legítima e verdadeira; indo alguns ateus ao ponto de especular a respeito de como preencher esse hiato ou vazio civilizacional que julgam um fato incontroverso. Então se percebe que o uso do termo é apenas uma maneira de se escusar da ideia de que, em oposição às falsas iniciações, pode haver uma iniciação verdadeira; e não basta acusar outrem de estar seguindo uma via perigosa e falsa para se assegurar de estar em posição cômoda e segura. Como diria Guénon, a mentalidade moderna se baseia em uma espécie de ordenação coletiva desde slogans demagógicos, e embora se possa perceber que assim funciona, e que isso pode ser demonstrado; o mero negar a existência desse auto-engano, pelo mecanismo de uma astúcia satânica, é já suficiente para confortar a coletividade com a ideia de que dito auto-engano não existe.

A “maldição” que desabou sobre a “Fera” e o seu séquito é precisamente aquela que desabou sobre o reino do sultão de As Mil e Uma Noites: a perda do horizonte qualitativo, a prisão no plano quantitativo. Tal é indicado pelo fenômeno da “solidificação do mundo”, um desenvolvimento de aproximação em relação à quantidade, como oposta à qualidade; com o seu séquito se tornando simbolicamente uma coletividade de objetos sólidos; e ele próprio, o príncipe, ser incapaz de se casar e promover a perpetuidade geracional do reino; por causa da sua aparência feia ou sugestiva do absurdo. Essa história guarda correspondência, por sua vez, com certo conto de Sherazade a respeito de um príncipe cujo reino é transformado por uma feiticeira que ele tomara por esposa, mas o traíra com um escravo. Ele feriu o escravo tornando-o um inválido, e eventualmente a feiticeira lançou sobre o reino uma maldição, petrificando o príncipe do umbigo para baixo (esterilidade e solidificação), e transformando os súditos do reino em peixes (por cujo simbolismo eu não me aventuro presentemente).

Como Sherazade, Bela é alguém concentrada em estudos, livresca, e eventualmente alguém obrigada a “dar testemunho” diante do governante.

O aspecto triste da história de A Bela e a Fera é que o “reino amaldiçoado e esquecido” é o mundo moderno. E portanto os vícios morais dos habitantes do povoado de Bela, como a vaidade e a superficialidade, guardam correspondência com o séquito da Fera ser composto de objetos domésticos, “superfícies”. O povoado de Bela é o “passado”, o palácio da Fera “o presente”. E a promoção de certa linhagem real está em risco. É precisamente isso que representam narrativas como as do “Exterminador do Futuro” e “Matrix”; no qual o embate entre homens e máquinas é na verdade o embate entre qualidade e quantidade. Daí que haja paradoxo analógico, sugestivo de uma unidade de fundo entre passado e presente; que os objetos domésticos encantados sejam mais gentis ante Bela do que os seres humanos comuns; e que um exterminador seja mais “humano” e honrado, ou submisso a regras de conduta, do que um ser humano. O “passado” e o “presente” são o mesmo.

Tal também guarda uma relação analógica com o fato de a brutalidade do sultão em assassinar esposa e concubinas, também as donzelas do país, seja de certo modo até menos desumana do que o vazio e a morte espirituais que se haviam disseminado no reino.

Um último ponto a respeito do “testemunho dado ante o governante”; é que se destaca o fato de esse testemunho ser feminino. Como o René Guénon observa a respeito do sacerdócio feminino em Autoridade Espiritual e Poder Temporal, ele é típico de períodos de transição, e degeneração. E resta uma meditação de por quê. É claro que esse estado degenerativo pode ser descendente (como ilustrado pela “sacerdotisa” de Elizabethtown), ou ascendente. Assim, uma espécie de sacerdócio ou função contemplativa de Maria precedeu o ministério público de Jesus Cristo; mas esse sacerdócio feminino ascendente tem um caráter discreto (correspondente ao simbolismo do Beemote, cujo esperar a água do rio chegar à boca assinala certa inação contemplativa); e mesmo quando carregado de uma qualidade mais próxima do Leviatã, esse sacerdócio feminino, qual ilustrado por Maria em Atos 1:14, é uma forma mais subjacente ou latente de atuação ou “se apresentar”. O feminino, em suma, é conversível com a ideia do rearranjo grotesco ficcional, a influência da profissão ou “simbolismo aplicado” subjacente; a influência do próprio folklore que Sherazade comunicou ao sultão; porque o feminino é conversível com a ideia da ambiguidade pela qual a unidade qualitativa se pode concentrar sob a superfície da unidade quantitativa. E isso torna mais inteligível Mateus 10:18-20 a respeito de se deixar infundir do espírito como um paciente ao se dirigir ao governante; significando a necessidade de um sentido subjacente a amparar a superfície.

Como essa ambiguidade feminina é propriamente o caráter do que é cômico, parece sugestivo de um ponto de vista degenerativo no falecido Christopher Hitchens, ao menos simbolicamente, que se tenha notabilizado ele por propôr que as mulheres não são engraçadas. Essa ideia é contrária ao proposto por Erasmo em Elogio da Loucura.

P.S.: O tema do “dar testemunho ante o governante”, nos filmes das franchises “Exterminador do Futuro” e “Matrix”; é um tema bastante evidente, e assumindo diferentes formas. Sarah Connor protagoniza esse tema diante das autoridades psiquiátricas, e diante do administrador tecnológico da empresa Cyberdyne Systems. Neo protagoniza esse tema tanto ao se confrontar com o “arquiteto” quanto ao chocar os seus superiores hierárquicos pedindo uma nave para se dirigir à “cidade das máquinas”; pedido que faz que o julguem louco.

Essa duplicidade ou ambiguidade entre pejorativo e elevado, nas mulheres; assinala uma correspondência entre o feminino e o número nove. Esse é o número que, ao referir em si todo algarismo, indica universalidade, e ao referir cada algarismo, assinala particularidade. A ambiguidade entre o sintético e o analítico é precisamente uma propriedade de o gato (símbolo do feminino) possuir nove vidas; o potencial imediato (síntese) para adquirir uma perspectiva privilegiada mediata (análise).

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Simbolismo do filme Herói

O filme Herói, um filme chinês de artes marciais, é um filme carregado de um simbolismo apocalíptico; e por isso, a despeito de a narrativa se passar a 227 A.C; ela não poderia ser mais atual.

Eu não estudei a tradição chinesa antiga ou a sua história, portanto esse exame é empreendido com grande desvantagem. Entretanto, como a fórmula narrativa é bastante sintética e carregada de uma correspondência familiar com outros simbolismos que examinei no passado, o exame é suficientemente inteligível.

A história gira em torno, aproximadamente, da tentativa de assassinato (perpetrada por um indivíduo chamado Jing Ke, aparentemente um nobre) de um governante muito poderoso e ambicioso, o Rei Zheng. O reino de Zheng se chamava “Qin”, e tinha um projeto imperialista que culminou na formação do Estado Chinês Antigo. O reino do qual Jing Ke, adversário de Zheng, era súdito; se chamava “Yan”. Um número de indivíduos ilustres, incluso um mercenário anônimo com grande maestria como guerreiro, discutiu e se posicionou ambiguamente em relação ao Rei Zheng, antes que este terminasse por acumular o poder sob pretextos de estado como “a promoção da paz”.

Ora, é significativo a respeito da decadência cultural ocidental que certos críticos tenham visto em Herói uma unívoca apologia do autoritarismo. Por exemplo, a prestigiosa publicação ou revista, The Village Voice, que ganhou ao todo três Pulitzers, e da qual Ezra Pound fora um colaborador ilustre; publicou uma review dizendo que o filme tinha “uma ideologia de desenho animado”, e podia ser comparado a um filme nazista como Triumph des Willens (“O Triunfo da Vontade”), uma espécie de documentário propagandístico cobrindo um congresso do Partido Nazista.

Herói foi, em contraposição a isso, interpretado como uma espécie de investigação cheia de nuança sobre o processo de globalização, por exemplo pela autora Wendy Larson (uma intelectual orientalista de Berkeley). Em certa palestra sobre o trabalho do diretor de Herói, Zhang Yimou, a Ms. Larson (claramente influenciada pela atenção acadêmica dada a Antonio Gramsci) corretamente apontou para o fato de o embate narrativo de Herói dizer respeito ao fenômeno da “colaboração paradoxal” com o imperialismo no sentido de uma “resistência de fundo” (que ilustra a própria realidade do apelo de blockbuster do filme para fins de ganhar retorno de bilheteria no Ocidente); além de o filme apresentar uma espécie de recuo filosófico em torno do que seja a política e a cultura, para que esses objetos se associem a universalidade ou uma irrestrição comparativa.

Por mais que esses aspectos contingentes do filme sejam interessantes, eles são comparativamente profanos; são apenas a superfície do simbolismo do filme. O fato de tanto os críticos quanto os admiradores do trabalho de Zhang Yimou parecerem tão alheios ao centro da narrativa e incapazes de compreender o que a narrativa manipula, é o sintoma de uma decadência intelectual temível e apocalíptica; a qual, na verdade, é precisamente o tema do filme.

A esse respeito é necessário fazer o seguinte recuo ou sugestão: na Ética a Nicômaco o Aristóteles menciona que o se abster de temer ou recear um castigo físico, como uma flagelação; é propriedade de um homem perverso, não de um homem com bravura. A bravura não consiste em certa indiferença cínica pela realidade. Portanto, ignorar a decadência intelectual e espiritual contemporânea, que está completamente fora de controle e assume ares cada dia mais sinistros (notadamente desde o seu centro emblemático na Igreja Pós-Conciliar); ignorar tal curso ou série de eventos sem os temer, é em verdade uma perversidade e uma óbvia inadequação à situação de discurso. A situação pode, é claro, ser carregada quanto possível com bravura e paciência; o testemunho da ignorância quase universal do que está em jogo pode ser sofrido sem histrionismo, e sem a ilusão de alguma pressa desencaminhada por “reagir”. Entretanto, algum senso de orientação e escolha deliberada se deve esforçar por preservar.

Sucede que quando um intelectual público como Olavo de Carvalho ignora o Segundo Mandamento, e a sua respectiva condenação do usar o nome sagrado de Deus para expressar surpresa (uma instrução típica de manuais de catequese e livros espirituais tradicionais); nem a ninguém destacado parece ter ocorrido lhe informar a respeito; é possível concluir sem equívoco que o nível intelectual geral está em uma fase avançada de descida infernal; e toda escolha deliberada a respeito de como agir em relação a isso tem de se basear no exame cauteloso e o mais responsável possível do que está havendo.

A respeito desse estágio uma série de observações se apresenta: desde que o Segundo Mandamento significa o principal preceito destacadamente social do catolicismo, a convivência humana especificamente “católica” se tornou, mesmo no plano teórico, invisível;  sobre ela se tornou normativa uma projeção ou interpretação pejorativa que a apresenta como uma forma de “auto-engano”. E para o reforço dessa acusação projetiva (porque o auto-engano está no acusador) a própria ignorância do preceito é suficiente; isto é, a negação do preceito basta para tornar evidente a veracidade da negação.

Esse desenvolvimento provavelmente já se apresentara como tendência nos anos cinquenta (e antes, é claro), quando René Guénon escreveu O Reino da Quantidade e O Sinal dos Tempos; mas desde que o preceito constara claramente do Catecismo de Baltimore n³, em uso até os anos sessenta (pelo menos), e verossimilmente se insinuara como motif narrativo nos quadrinhos do Demolidor em meados dos sessenta (por causa desse motif no seriado da Netflix); é possível conjecturar como provável um acirramento significativo do ponto de vista profano entre a publicação de O Reino da Quantidade e O Sinal dos Tempos e o período atual. Por exemplo, René Guénon tomava como observação significativa a dificuldade e delírio do homem moderno no julgar as intenções de fundo do homem medieval; intenções ou ponto de vista cujo caráter inacessível a cada dia se acirrava. Sucede que hoje, no séc. XXI, já está se tornando difícil atinar com o ponto de vista de meios sociais nos anos sessenta. Esse desenvolvimento deveria parecer particularmente chocante, mas com raras exceções (por exemplo a violação do Segundo Madamento pelo “Cardeal” Dolan notada em vídeo recente dos Dimond) é notado.

Apocalipse 17:5: “E sobre a fronte dela um nome foi escrito: Um mistério: Babilônia a Grande, a mãe das fornicações e abominações da terra.”

A passagem acima guarda correspondência com o simbolismo do Leviatã; o qual, como a meretriz Apocalíptica; se associa à ideia da dispersão secular, o colapso iniciático desde o carregar imoderadamente no plano da manifestação o que fora iniciaticamente entesourado em um plano mais sutil. Tanto o Leviatã (na versão Douay-Rheims) quanto a Meretriz se cercam de ouro. Há certa oposição analógica entre o Leviatã e a Meretriz, entretanto; a saber; o Leviatã é associado ao princípio político agente, ele é chamado “rei”, e associado ao simbolismo real do sol. A meretriz, desde a sua condição feminina; não é um ator político sobretudo agente; mas paciente; a sua própria embriaguez e oferta de embriaguez e esterilidade moral é uma espécie de símbolo da sua inação. A Meretriz é a dispersão e perda sem volta de um potencial secular por meio de um curso entrópico fora de controle. Nesse sentido ela representa uma espécie de humilhação e dissipação do orgulho do Leviatã (o “rei de todas as crianças do orgulho”), embora seja o seu efeito. Isso fez que São João, autor do Apocalipse, pasmasse ou admirasse a imagem da Meretriz; assim como hoje, num primeiro momento, é difícil admitir que uma tal degeneração intelectual como a atual é possível.

Ora, desde que a ambição imperialista do Reino de Qin claramente representa a ambição e o curso típico do Leviatã (secularismo); os seus adversários são naturalmente os indivíduos iniciados e promotores da iniciação. Os indivíduos em número reduzidíssimo que têm, a princípio, poder secular ou temporal suficiente para matar Zheng e frustrar os planos imperialistas (e mesmo explicitamente globalistas) do Reino de Qin, terminam por se revelar incapazes de executar o plano. O motivo é que o assassínio de Zheng significaria precisamente o abandono imoderado da intelecção, o excitar imoderado do Leviatã. O conflito travado entre Zheng e seus adversários não é no plano da disputa política conforme o estereótipo ordinário do que seja uma intriga política; mas antes é uma intriga no sentido mais elevado da palavra. O termo “intriga” significa “enigma”, “obstáculo”, isto é, uma aparência passageira de desordem ou obscuridade, levando eventualmente à sua subsunção na ordem e no esclarecimento. A intriga que os adversários de Zheng terminam por arquitetar, sobretudo sob a liderança do “guerreiro sem-nome” (Jet Li), é precisamente uma intriga nesse sentido elevado, nada mais do que um simbolismo aplicado e argumento intelectual a ser apresentado diante do rei; porque é essa a esfera própria de atuação das pessoas opostas ao secularismo, cuja vocação é a concentração intelectual, como oposta à dispersão secular; a profissão diante do rei sendo nada mais que uma profissão intelectualmente gratificadora.

Mateus 10:18-20: “E sereis tragos diante de governadores, e diante de reis por minha causa, para um testemunho a eles e aos gentios: Mas quando eles entregarem-vos, não tomeis pensamento de como ou o que falar: porque vos será dado naquela hora o que falar: Porque não sois vós que falais, mas o espírito de vosso Pai que fala em vós.”

A necessidade de dar testemunho ante os detentores do poder secular está conectada à necessidade de “sofrer” que se não saiba de antemão o que falar. O motivo é reforçado por 1 João5:8, a respeito das três “testemunhas” (no grego termo associável à ideia de “martírio”); a saber; porque a testemunha intermediadora, a água (plano psíquico), necessita como propriedade para fins do seu efeito purificador, de um misto do sensível e do suprassensível; e se é necessário, para dar testemunho da verdade e ser nela gratificado, o elemento do sofrer sensível (ser entregue diante dos governantes); significa analogicamente isso a admissão da incompletude suprassensível e da necessidade do padecer suprassensível (ter o espírito do Pai a falar nas testemunhas diante do governante); porque as três testemunhas (de 1 João 5:8), sangue (mundo sensível), água (mundo psíquico) e espírito (mundo suprassensível) “são um”; e um só, portanto, é o testemunho salvífico da verdade.

Os adversários de Zheng não possuem um projeto político em sentido ordinário; que é na verdade um sentido pejorativo; eles possuem um projeto espiritual. O filme está carregado da sugestão de que os adversários de Zheng colocam a utilidade abaixo da gratificação intelectual, e a honra acima de qualquer senso ordinário de vantagem pessoal.

Apocalipse 13:7: “E foi dado a ele fazer guerra com os santos e vencê-los. E poder foi dado a ele sobre toda tribo e povo e língua e nação.”

Essa passagem em Apocalipse significa a vitória terrestre da dispersão secular sobre a concentração contemplativa. Como há uma analogia entre esses termos, há uma inversão analógica entre eles. O que no plano terrestre (plano secular) é uma derrota, no plano celeste é uma vitória; e conversivelmente, o que no plano terrestre é uma vitória, no plano celeste (concentração contemplativa) é uma derrota.

É precisamente essa oposição de forças o que está em jogo na trama de Herói. Isso é particularmente claro na cena inicial na qual o casal de adversários de Zheng — casal buscado pelo guerreiro sem-nome — é apresentado. Um destacamento militar do Reino de Qin, em grande número, se concentrava em torno de um povoado do Reino de Zhao, onde se encontrava o casal. O casal praticava caligrafia; desde certa integração intelectual entre as artes marciais e seus movimentos, com a arte própria da caligrafia. Essa arte também é relativa ao plano puramente intelectual, porque a contemplação do ideograma em associação à ordem em que é escrito, possui o caráter de uma gratificação intelectual. Isso é sugerido, por exemplo, no livro Oriente e Ocidente, no qual o René Guénon observa que intelectuais ocidentais como Leibniz passaram vexame inadvertido ao propôr um sentido matemático a uma série de ideogramas como se os chineses o ignorassem (o que era falso) ou esse sentido constituísse a camada de significado, dentre muitas, mais importante e central. A concentração das forças do exército de Qin e seu lançamento avassalador de flechas sobre a escola de caligrafia é representada pelo Leviatã; a destruição do recinto, a escola, representa a Meretriz Apocalíptica (perturbando o senso de realidade das pessoas e as deixando pasmas); e o continuar a escrever o ideograma, da parte de “Espada Quebrada”, uma das partes do casal, se mantendo concentrado enquanto à sua volta todos se dispersam e as próprias flechas devastam a edificação e o põem em perigo; tal representa o “testemunho ante o governante”.

A Ms. Larson de fato estava certa ao propôr que o filme apresenta uma meditação filosófica aprofundadora do que sejam “cultura”  “política”. O verdadeiro governante é aquele que governa a si mesmo em direção ao centro, quando toda força entrópica em torno ameaça a sua concentração. Conversivelmente, a filosofia de Olavo de Carvalho é, a despeito de todo seu defeito teológico-metafísico, o coração do Estado Brasileiro em um sentido muito mais real do que as instituições secularmente cristalizadas que passam pelo Estado Brasileiro. Semelhantemente, o René Guénon e a sua obra são o verdadeiro establishment acadêmico Ocidental, tudo mais sendo apenas irrealidades comparativas — o que é irônico desde o fato da identificação de Guénon com o Oriente. E por fim, os irmãos Dimond são a verdadeira hierarquia eclesiástica católica no mundo contemporâneo, eles são o verdadeiro centro da Igreja. tudo mais sendo marginal ou algum desvio degenerativo.

“Espada Quebrada” e “Neve Voadora”, sua mulher; em aparência se afastam um do outro afetivamente de um modo que guarda certo significado simbólico. Neve Voadora desejaria agir secularmente, dar cabo de Zheng. Isso é alusivo de a mulher significar o relativo ao “transitório”, a um apego ilusório em relação ao desenvolvimento temporal; precisamente o que é mais alheio à vocação contemplativa. Nesse sentido “Espada Quebrada” representa a “contemplação”, e “Neve Voadora” a ação. Tal guarda correspondência precisamente com as “duas testemunhas” apocalípticas. Essas duas testemunhas guardam correspondência com as três testemunhas terrestres em 1 João 5:8. Mas como pode ser assim, se em 1 João 5:8 as testemunhas são três, não duas? Em primeiro lugar, desde o modo como São João articula a ideia das três testemunhas, é evidente que elas são princípios regulares e ou imperecíveis, são um reflexo da própria constituição cósmica ou universal; e desde esse ponto de vista elas têm necessariamente de se associar às “duas testemunhas” enquanto princípio iniciático. Em segundo lugar, existe um par (ao qual as duas testemunhas se associam necessariamente) que igualmente possui uma identidade de fundo com as “três testemunhas”, a saber, a estrela e o mar; as quais, guardam correspondência com a oposição entre contemplação e ação, ou teoria e prática. O elemento intermediador entre a estrela e o mar, como explicado em outro texto, é precisamente o deserto, o qual corresponde analogicamente à água, isto é, desde certa inversão analógica. O que é deserto no plano terrestre, é a água no plano celeste. Assim, o fato de que inexiste, senão de modo latente, um elemento intermediador entre a estrela e o mar, ou as duas testemunhas apocalípticas enquanto manifestações históricas (a camada literal do texto bíblico); está relacionado ao fato de o deserto (que representa a mortificação) ser basicamente uma ausência, por se associar à ideia de desolação. Isto é, a mortificação das testemunhas, que se vestem de pano de saco, que se sugere em Apocalipse 11:5 vão ser feridas, e eventualmente vencidas e mortas; possui o caráter terrestre de uma mera ausência, enquanto sob o aspecto do plano sutil ou celeste essa mortificação vai ser a própria intermediação iniciática, o dar “testemunho ao governante”; em suma, a água.

Assim como o poder dos adversários de Zheng, o poder das testemunhas será só em aparência um poder secular em sentido ordinário, uma intriga em sentido baixo. O aspecto mais real da atuação delas será a profissão pública e a gratificação intelectual daí decorrente.

O “guerreiro sem-nome”, para me exceder um pouco nesse estudo, guarda um simbolismo particular. Ele é um indivíduo anônimo, mas há duas formas de entender o anonimato, no sentido baixo de um afastamento da qualidade em direção à quantidade; e no sentido elevado do afastamento da quantidade em direção à qualidade. O anonimato do guerreiro sem-nome, evidentemente, é o último; porque o seu código moral o impede de colaborar de modo inadvertido com o secularismo, ou Leviatã, assassinando Zheng, que seria apenas um desenvolvimento secular sem fundamento no plano da intelecção. Ao voluntariamente dar a sua vida e nisso professar a superioridade da consideração contemplativa sobre a consideração secular-dispersiva; ele promoveu a qualidade. Essa oposição entre qualidade e quantidade é representada pelo guerreiro sem-nome, um homem só, ser confrontado e morto pelo numeroso destacamento militar em torno do palácio do Rei Zheng.

Nesse sentido, o apelo de “Espada Quebrada” e do guerreiro sem-nome a ao termo “Tianxia” (天下), não significa uma inequívoca apologia do poder temporal unificado. O termo, aparentemente, significa tanto o “mundo geográfico”, quanto “tudo sob o céu”. A ambiguidade é aparente, e expressa a tensão ou paradoxo que existe desde o se abster de resistir secularmente à unificação dos diferentes estados ser concomitante com o se submeter ao “céu”. Por exemplo, é a vontade de Deus e a permissão de Deus que deu ao mundo o testemunhar o seu fim apocalíptico. Assim, a degeneração é uma passagem, e a consumação dessa degeneração, o ser levada a cabo; como bem notou René Guénon, é “o fim de uma ilusão”.

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Simbolismo da morte de Smaug

Não é segredo que John Ronald Reuel Tolkien (J. R. R. Tolkien) tinha certo interesse em conhecimentos esotéricos; e eles transparecem nas histórias sobre a Terra Média, como O Hobbit. Há certo simbolismo particular, entretanto, que ele claramente intencionou comunicar, na passagem sobre como Smaug, o dragão, é morto; que se afigura uma espécie de complemento ao que foi dito no post anterior.

O dragão é conversível com a ideia do Leviatã; o qual, por sua vez, representa (como aplicação contingente) a secularização, e a dispersão ou o consumir no plano manifesto aquilo que foi acumulado ou entesourado no plano sutil da intelecção. O dragão, portanto, se associa tanto à ideia de riqueza ilimitada (como a própria versão bíblica Douay-Rheims sugere a respeito do Leviatã), por exemplo a promoção secular do bem desde o conhecimento acumulado; quanto se associa ao consumir e devastar a vida, qual acontece na história do Sr. Tolkien quando Smaug reduz a chamas o povoado de Laketown; e tal consumir representa a interrupção da iniciação desde o curso imoderado da dispersão secular. Esse mesmo tema do sentido ambíguo do dragão está de algum modo ilustrado no seriado Avatar, A Lenda de Aang; porque é destacada ali a discussão sobre os dobradores de fogo, a nação associada aos dragões, terem na sua arte o poder associável seja à vida e sua conservação, seja à destruição; conforme se use o poder com moderação ou imoderação. A nação do fogo, é claro, representa a nobreza (desde um rearranjo grotesco-ficcional), a classe dos homens de ação que promovem a iniciação sob o aspecto da sua manifestação secular.

Ora, sucede que a mesma alusão às “Quatro Nações”, que são as quatro castas do hinduísmo, está presente em “O Hobbit”. Os elfos são os sacerdotes, os homens a nobreza, os anões são o “terceiro estado” medieval, incumbido da promoção do plano material-econômico, como o comércio ou a agricultura; os hobbits sendo os servos, ou o povo comum e indiferenciado. Não surpreende, pois, que em O Hobbit o personagem que termina por assassinar Smaug enquanto este ataca Laketown, é um “homem”, isto é, um nobre; porque é ao homem de ação incumbido de projetar sobre o mundo secular a ordem intelectiva ou celeste que cabe a responsabilidade de se apartar da imoderação secular-dispersiva, e combatê-la.

O simbolismo de como Smaug é assassinado, entretanto, é um tanto mais rico em detalhe do que isso, e na verdade o seu simbolismo é inesperadamente denso.

O fato de Bard, que termina por matar Smaug, ser o descendente do indivíduo que primeiro enfrentara o dragão, e falhara em o matar; assinala uma propriedade dos indivíduos nobres; que é o contar com certa instrução ilustre e relativa a uma linhagem ilustre. Assim, é um reforço a isso que Bard não dê cabo do dragão sozinho, mas com a ajuda do seu filho Bain. O combate ao curso degenerativo da secularização (típico das casas reais e linhagens nobiliárquicas) não é um esforço individual e temporalmente isolado; é uma espécie de participação hereditária, é uma espécie de “projeto familiar”. Assim, o antepassado de Bard desferiu a flecha que fez uma pequena abertura no peito de Smaug, para que Bard entre no esforço munido de alguma vantagem; e do mesmo modo o filho de Bard se expõe ao perigo para levar a flecha negra ao seu pai. O antepassado encorajou Bard com o seu exemplo, também o seu filho; e o filho agora é encorajado pelo pai; em uma mútua colaboração impessoal cristalizadora da linhagem nobre.

O fato de que a flecha tem de passar pela pequena passagem associada ao coração de Smaug é uma alusão ao simbolismo dos ciclos cósmicos. O coração é um simbolismo do centro; e portanto a necessidade de se chegar ao centro para transcender uma condição é alusiva de cada ciclo se comunicar com os demais desde o seu ponto central, ou só permitir o vislumbre da transcendência que une cada ciclo desde o ponto central de cada ciclo, que constitui a culminação de cada ciclo e a sua integração no ciclo seguinte; assim como as contas do rosário se comunicam umas com as outras, de modo sucessivo, desde uma linha ou passagem contínua que atravessa o centro de cada conta. Essa passagem de um ciclo a outro carrega uma aplicação microscópica, constatada pelo iniciado conforme a sua jornada terrestre se desenvolve, e também uma aplicação macroscópica, a passagem para um plano celeste transcendente em relação ao plano terrestre. Nesse sentido a passagem pelo coração, da flecha, significa também a passagem de uma geração à outra, da linhagem nobre; cada geração simbolizando e expressando um ciclo espiritual, sob algum aspecto; a necessidade dessa passagem significa a necessidade de se desviar da dispersão secularista para que a linhagem ilustre e real não se esgote ou seja exaurida iniciaticamente. Desde que se consiga realizar essa passagem, a casta nobre, desde a manutenção ou conservação da sua linhagem, vai conseguir manifestar secularmente a ideia da cadeia suprassensível de ciclos espirituais, como é o seu dever.

A passagem pela estreita abertura no coração de Smaug também guarda correspondência com a passagem pelo “olho da agulha”. Lucas 18:25: “Porque é mais fácil para um camelo passar através do olho de uma agulha, do que a um homem rico entrar no Reino de Deus.” É verdade que “camelo” e “corda”, em aramaico (a língua ordinária de Jesus), são equivalentes quanto à grafia; mas sucede que a ambiguidade entre as duas conotações é verossimilmente intencional. “Camelo”, segundo certa sugestão hipotética do Etymology Dictionary, é um termo cuja formulação na língua fenícia se parece com o verbo árabe “carregar”; e o carregar objetos é precisamente o uso mais ordinário do camelo. Lucas 18:25, portanto, está provavelmente apresentando uma oposição analógica entre a corda pesada, e a agulha leve; ou, também, entre o conteúdo positivo e relativo à composição de diferentes planos de realidade, do animal camelo; e o espaço negativo cuja alusão ao centro é uma alusão à dissipação de toda composição, do olho da agulha. Como toda analogia, há entre os elementos análogos, a despeito de uma inversão e descontinuidade, algum elemento contínuo.

No caso da corda (ou camelo) e da agulha, esse elemento contínuo foi identificado e proposto pelo metafísico e orientalista Ananda Coomaraswamy; porque ele descobriu (desde certo exame etimológico etc.) que o olho das agulhas, em certo passado remoto, era formado por meio de um nó do segmento metálico, precedendo a solda (ou algo parecido). Assim, se a corda supõe um nó ou sua possibilidade; e ao menos o entrelaçar de fios diversos na sua composição, também a agulha. A diferença é que na agulha essa composição fica de algum modo latente, enquanto na corda ela permanece patente. A oposição entre a corda e a agulha, assim, guarda correspondência com a oposição entre a análise e a síntese, o mar e a estrela, cuja unidade e identidade de fundo pode ser atinada, e esse atinar é a iniciação. Essa mesma oposição guarda correspondência com aquela entre as cores do arco-íris e a cor branca, que é o seu princípio sutil ou síntese transcendente.

A capacidade de fazer a corda passar pelo olho da agulha é alusiva da capacidade para desfazer o “nó” que efetuou a composição da agulha, e que acirrou a sua descontinuidade aparente com a corda. O “olho da agulha” também é conversível com a ideia da “porta estreita”, e da passagem do plano sensível carregado de composição e multiplicidade numérica, ao plano suprassensível, que supõe a unidade acima de toda composição e multiplicidade. Na verdade o próprio corpo pesado de Smaug, o dragão, o equipara à “corda”; enquanto a passagem pelo seu coração é “o olho da agulha”. A dispersão própria do secularismo apresenta ao nobre um peso desconcertante e em aparência uma adversidade invencível; porque o plano da manifestação, o âmbito do secular, diz da multiplicidade e da ilimitação numérica aparente. Por exemplo, é difícil saber como promover a causa política do catolicismo no mundo contemporâneo; porque é difícil antever o ponto de vista dos diferentes indivíduos, e antever como eles poderiam colaborar e em que ordem o lhes informar deveria ser realizado a fim de maximizar a possibilidade da sua colaboração. Antever e ordenar a ação ou a realidade por trás de um conjunto ilimitado de elementos, como diria Aristóteles, é um desafio pesado que transcende a faculdade humana e só pode ser atendido por Deus.

A passagem pelo coração de Smaug significa o curso de ação que desfaz o nó e a dificuldade de chegar a essa antevisão suficiente; ilustrando precisamente como a ação empreendida na escala humano-terrestre (entre outras aplicações) expressa marginalmente o ponto de vista munido da ilimitação divina.

O nó a que alude o olho da agulha, como o René Guénon observou em Símbolos Fundamentais da Ciência Sagrada; guarda correspondência com o simbolismo do “nó górdio”, que apenas Alexandre, o Grande (um nobre ou rei) teria conseguido desfazer. Esse mesmo simbolismo guarda correspondência com Odisseu, no épico de Homero, ter sido o único (entre os demais homens disputando a posição real em Ítaca) a conseguir encaixar o olho da corda, constituído por um nó, na extremidade solta do seu arco. É precisamente um arco o objeto que Bard usa para matar Smaug; ou antes, desde a danificação do mesmo, os ombros do seu filho Bain. Isso simboliza a linhagem nobre como associável ao nó ou o seu respectivo arco; a saber, a arma ou meio de ação desde a qual o rei se faz rei, e se afigura o centro manifesto do mundo.

Um último aspecto do simbolismo de como Smaug é morto, consiste em que entre Bard e o seu filho existe uma correspondência específica, aquela entre passado e presente, estrela e mar, e também, potencialmente, teoria e prática, síntese e análise. O ancião ou pai é o polo mais intelectualmente desenvolvido, e portanto é ele quem “vê” o alvo; isto é, é desde a formulação teorética sintética e relativa à contemplação que o problema é apreendido; enquanto Bain apenas “sente” o alvo e a sua posição, porque está de costas para Smaug enquanto a flecha pesa sobre o seu ombro; isto é, desde o plano analítico rumando para uma síntese futura. É preciso que a prática ou o “rapto” (Bain e tempo presente) esteja em tensão com a “ideia” (Bard e tempo passado). Essa noção também é aduzida por meio do simbolismo do rio, rumando para o oceano (iniciação), no qual as duas margens são, respectivamente, o plano abstrato e o plano sensível profano, e é necessário se desviar de cada margem , desde as tensões e forças que levam a uma ou outra delas, para chegar ao destino.

Há outras numerosas correspondências simbólicas na Trilogia cinematográfica, que não é possível abarcar.

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Filosofia do simbolismo

A pergunta se impõe a respeito do que seja o rearranjo grotesco-ficcional do mundo sensível. E a definição disso impõe um número de dificuldades.

Por exemplo, o rearranjo torna ficcionalmente sensível o que é suprassensível, e portanto o que é rearranjado não é um conjunto de elementos sensíveis, e sim um conjunto de elementos sem qualificação, efetuando um rearranjo puramente sensível apenas na superfície.

Uma outra dificuldade é que o rearranjo em questão não pode ser equiparado de modo simples e direto ao simbolismo enquanto tal, porque o rearranjo supõe um caráter “ficcional”, uma narrativa apresentada como profana ou apartada da iniciação. Isso é acidental ao simbolismo, que pode ser simplesmente não identificado diretamente como uma narrativa, e mesmo quando assim identificado pode bem compreender (ou não excluir), historicamente, o sentido narrativo de superfície. O rearranjo grotesco-ficcional de elementos sensíveis é o efeito discursivo da concentração potencial da transmissão iniciática, mas uma transmissão de caráter comparativamente secundário. O rearranjo grotesco-ficcional de emoções (igualmente sugeridor do suprassensível) é o efeito discursivo da dispersão da transmissão iniciática, mas uma dispersão exagerada. Escusado dizer que o primeiro rearranjo é associável ao esforço propriamente sacerdotal, o segundo ao esforço propriamente nobre.

A dispersão em questão pode ser mais ou menos condenável, conforme assinale o se apartar mais ou menos radical da concentração ou acumulação de origem.

Há paradoxos potenciais a respeito disso. Um rei como São Luiz IX pareceu uma expressão da conduta sacerdotal ou contemplativa (concentração), mas os seus esforços foram, ao menos em alguns eventos cruciais, desastrosos ou trágicos no se associar à exaustão de recursos e vidas (dispersão). A Sétima Cruzada foi o maior fracasso militar da história das Cruzadas. A Oitava Cruzada, por mais que tenha trago vantagens ao irmão de São Luiz IX, Carlos I de Anjou, como também a toda a Cristandade; representou no todo apenas um plano abortado, e coincidente com a devastação de vidas, recursos e planos longamente preparados, por conta da peste que assolou o exército. De outro lado, um conde e príncipe como Ricardo de Cornwall, que entrou de modo comparativamente tardio na Cruzada dos Barões, não se destacou como homem piedoso; ele é lembrado por ter sido imensamente rico, e por não haver tardado muito na Terra Santa; o que supõe certa concentração e comedimento secular (concentração simbolizada pela fortificação dos muros de Ascalona), de par com a dispersão do ideal cristão sob o aspecto da infusão do iniciático no plano secular.

Não é difícil perceber que a oposição entre concentração e dispersão pejorativas ou ambiguamente pejorativas, considerada aqui, guarda correspondência com as criaturas bíblico-sobrenaturais Beemote e Leviatã. Também essa oposição guarda correspondência, na filosofia aristotélica, com a oposição em cada hábito moral entre o exagero e o defeito. Em relação à temperança a insensibilidade é o exagero, a intemperança o defeito. Em relação à coragem a audaciosidade é o exagero, a timidez o defeito. Em relação à fé a superstição presunçosa é o “exagero”, a incredulidade ou apostasia é o defeito.

A dificuldade que a oposição entre concentração e dispersão coloca é uma dificuldade relativa ao conseguir simultaneamente aludir tanto a uma como a outra coisa, tanto à circunferência, quanto ao quadrado. E tal é, na sua realização mais simples, a forma octogonal.  É precisamente o delinear dessa forma, e todas suas possíveis derivações geométricas, que a iniciação maçônica associa ao esquadro e ao compasso.

Essa consideração também faz notar a analogia de que, se dispersão pode ir “longe demais”, precisamente aquilo que engendra o rearranjo grotesco-ficcional das emoções, a concentração pode não se carregar de intensidade suficiente, de modo paradoxal, pela ausência de um recuo dispersivo; e tal significa o retardar a formulação do rearranjo grotesco-ficcional de elementos sensíveis.

P.S.: É digno de nota que a versão Douay-Rheims da bíblia associe o Leviatã ao simbolismo solar (realeza e iniciação), em particular como um ser apoiado nos raios do sol, enquanto outras versões em inglês, como a King James Bible, sequer aludem ao sol na passagem (mas tão somente a objetos contundentes). Isso parece sugerir a ambiguidade da dispersão como associável à promoção da iniciação. Também talvez apenas na Douay-Rheims se alude ao Leviatã jazer sobre ouro como sobre a lama, sendo o ouro marginalmente uma variação do simbolismo solar. Essa imagem, é claro, traz à mente o personagem de O Hobbit, o dragão Smaug cercado de ouro. O dragão, assim, representa precisamente a riqueza potencial e o perigo da dispersão, no curso iniciático.

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Simbolismo do filme The Greatest Game Ever Played

O filme The Greatest Game Ever Played é baseado no torneio de golf chamado U.S. Open (de 1913) em que o jovem amador Francis Ouimet enfrentou o favorito e profissional jogador britânico Harry Vardon.

É um tema tocado de modo bem delicado, que tanto Francis quanto Harry, tenham sido underdogs sob algum aspecto, Francis em relação à classe social e experiência como caddie; o Sr. Vardon, por ter tido uma origem humilde. Ambos de famílias católicas (qual é dito de modo brevíssimo ou sugerido), aceitos na “sociedade maior” elitista a despeito da sua origem. O filme alude ao fato de os indivíduos da elite, dos dois lados do Atlântico, se ressentirem marginalmente com o fato de nenhum dos membros da sua corte ter sido finalista ou competidor suficientemente destacado na competição. O orgulho do pertencer a uma classe de valor estereotípico foi ferido; tanto quanto o orgulho das classes e grupos desdenhados foi, de sua vez, magoado em algum momento traumático do passado.

O Mágico de Oz alude precisamente a essa dinâmica da disispação do valor do estereótipo; em que Dorothy e seus companheiros, underdogs no sentido mais emblemático e legítimo da expressão, se apresentam como uma ameaça radical e paradoxal a um status quo político que parecia estabilizado de modo significativo e em aparência imperecível. A aparência de estabilidade que a degeneração da cristalização estereotípica engendra faz a percepção humana se guiar de modo auto-indulgente doentio; e essa estabilização termina por ser despedaçada de modo inadvertido e abrupto; e necessariamente, se expressando de modo sensível, pela atuação de agentes paradoxais.

O Brasil está experimentando precisamente um tal evento. Um esquema de poder olavista está substituindo um outro esquema de poder, cujas vertentes e figuras ilustres estão sendo humilhadas e confrontadas com a própria exaustão retórica e indisponibilidade de qualquer oposição com coesão discursiva significativa. Depois da atuação pública dimondiana, e em escala menos significativa; é essa revolução política o fenômeno mais espantoso que testemunhei.

Um aspecto desse fenômeno é que o transcender a exaustão retórica dos antigos detentores do poder não equivale ao estar-se imune a uma exaustão retórica. A nova rede social na esteira do olavismo está retoricamente aquém da discussão da crise católica, e o seu ponto de vista sob um número de assuntos está viciado na mesma medida, ou mais, que o ponto de vista de Olavo de Carvalho. Esses estereótipos degenerados em ascensão representam a degeneração estereotípica futura a se afigurar o status quo. Não é possível deter ou corrigir esse processo; porque ele é apenas o efeito remoto da degeneração original na transmissão do conhecimento; uma transmissão já iniciada e praticamente finalizada sem possibilidade de alteração. Os brasileiros, assim, são reféns dessa degeneração, em um sentido parecido com a população de Oz ser refém da reputação intimidante (e falsa) do seu governante, no sentido de tal lhe garantir estabilidade e paz. Do mesmo modo, o governante e causa eficiente dessa reputação é obrigado a viver desse papel, sem meios de se desviar dele; no que também é ele um refém do público.

Harry Vardon não odiava o establishment britânico esnobe que o apadrinhou, ele se apoiava nessa fonte de autoridade (a despeito de todo constrangimento passado); conforme o filme bem ilustra; e o establishment se apoiou na sua imagem ou áurea de invencibilidade. Do mesmo modo, os companheiros de Dorothy, mesmo tendo a si revelado o segredo de Oz, a saber, que o governante de Emerald City não era um bruxo poderoso, mas apenas um farsante; insistiram em ser “corrigidos” ou receber dele o atendimento mágico de um pedido; como numa benção sem a qual não poderiam se tornar príncipes. A princípio esse procedimento pode parecer uma inversão satânica do curso político natural desde o qual o clérigo assume o papel de kingmaker, fazedor de reis. Entretanto, desde que essa deferência do novo governante ao antigo supõe a substituição do antigo (Oz logo após tal deferência a si paga se apartou para sempre de Emerald City); o elemento profano dessa concessão ao antigo, junto com o transcender, constitui o paradoxo cômico do relativo ao plano psíquico intermediador, a expressão octogonal da transição política (sendo a forma octogonal, por excelência, um símbolo da transição no seu sentido mais inicial ou primitivo).

A esse respeito é preciso identificar hipoteticamente o motivo de a transição de poder, em aparência, estar se dando de modo tão carregado de ressentimento; embora esteja ocorrendo de modo regular e sem volta. Um motivo é que a atuação pública do Prof. Olavo de Carvalho é carregada do recurso criativo da inversão grotesco-ficcional das emoções (como no estilo narrativo do filme Deadpool), que é um recurso estranho à transmissão iniciática, porque a inversão da ordem ordinária das emoções impede uma notação intelectual compreensiva, mas se afigura uma espécie de beco sem saída corrosivo. A inversão grotesco-ficcional das emoções é uma espécie de confissão subjacente e sinal do caráter degenerativo da iniciação sendo comunicada; ao mesmo tempo o Prof. Olavo sabe que o antigo establishment vai ter de engolir o ponto de vista dele mesmo assim. Ele está impondo uma humilhação de um modo que poderia ser descrito, sob um aspecto, como desnecessário; e de outro, como inevitável, dada a degeneração de fundo que necessita se expressar de modo psíquico-sintético como motif literário. Assim, o professor Olavo não pode nem se carregar da elegância de Harry Vardon, nem abrir espaço por uma revolução violenta. Ele mesmo não tem controle sobre o processo.

O preço que Dorothy e seus companheiros pagaram pela concessão do poder ou título real foi o matar  bruxa do Oeste. O preço que Harry Vardon, e o seu encorajado adversário Francis, pagaram; foi simplesmente vencer. A vitória intelectual do olavismo, entretanto, se excede em muito o que a precedeu, não é suficiente no sentido do independer de tempo e lugar; daí o caráter ambíguo e carregado de ressentimento da sua vitória.

A vitória do jovem Francis Ouimet, com efeito, teve o sentido simbólico de revelar que o valor independe de tempo e lugar, por exemplo da idade ou classe social.

Desde essa consideração hipotética, cabe se perguntar qual seria a feição de uma atuação pública precedida do mais perfeito sucesso intelectual. Não poderia ela ter como feição o rearranjo grotesco-ficcional das emoções. A sua feição teria de ser a do rearranjo grotesco ficcional dos objetos sensíveis.

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Crítica da Teoria das 12 Camadas da Personalidade

A Teoria das 12 Camadas é uma das mais interessantes, e aparentemente mais influentes, do pensamento do filósofo Olavo de Carvalho.

A Teoria, se não me engano, foi apresentada como uma espécie de meditação retroativo-descritiva do curso ordinário da personalidade, ou das personalidades. Esse fato impõe um número de dificuldades à teoria. Um deles é que ela não supõe esse curso enquanto associável ao que o autor chamou “a teoria dos ciclos cósmicos” do René Guénon. Por isso, não há nenhuma tentativa aparente de estabelecer a “história” de como esse curso ordinário se tornou ordinário. E o esclarecimento disso tornaria a teoria mais inteligível. De outro lado, em comentário recente Olavo de Carvalho alegou que ele simplesmente não acredita na “teoria dos ciclos”, preferindo, se infere, o ponto de vista que em outras ocasiões atribuiu a von Ranke: “Todas as épocas são iguais aos olhos de Deus”.

O caráter não inequivocamente alheio a contingências históricas é um sinal, me parece de si suficiente, de que se trata de uma teoria profana no sentido guenoniano. Mais especificamente, o não se haver descrito de modo muito enfático a teoria desde o aspecto da sua contingência histórica, é um sinal do caráter profano da teoria; porque é um sinal de não se esclarecer o ela não decorrer de modo simples e direto de algum princípio.

Um outro ponto a respeito da teoria é que, se a aquisição da “camada mais elevada”, a Camada 12, é apresentada como a última coisa a ser conquistada ordinariamente; de outro lado, a própria teoria alardeia a ideia da possibilidade de exceções à regra, e mesmo da aquisição dessa 12 camada, a concentração na submissão a Deus, desde o início. Ora, a oposição entre a aquisição da camada última por último, ou primeiro, guarda correspondência com o simbolismo da oposição entre a árvore do conhecimento do bem e do mal (que supõe uma degeneração) e a árvore da vida (que supõe a dissipação da degeneração desde a indivisão do simbolismo do centro). Nessa esteira, é evidente que se a indivisão em questão pode ser associada ao efeito do sacramento do batismo nos recém-nascidos ou catecúmenos adultos; o sacramento realizado legitimamente deveria ser associado à aquisição imediata da 12 camada. Portanto, em uma sociedade ou civilização católico-romana a posse da condição relativa à 12 Camada não é ordinariamente a última a ser alcançada, é a primeira, e depois ocorre em relação a ela, em alguns casos, um afastamento acidental e degenerativo. O fato de que a teoria não se meteu nesse assunto é mais um sinal de ser ela uma teoria profana.

O exemplo clássico apresentado a respeito de um indivíduo estabilizado na 12 camada é o exemplo de Mahatma Gandhi. Ora, na encíclica Ad Extremas (Leão XIII, 24 de junho de 1893), o pastor dos fiéis católicos ensina que as tradições do hinduísmo (nas quais se inseriu Gandhi aparentemente) devem ser consideradas “vis superstições”, isto é, devem ser consideradas associáveis ao tomar parte em um curso degenerativo, não na obediência legítima a Deus. Ademais, esse ponto de vista também decorre, de modo nenhum problemático, muito menos discreto e pouco disseminado no período patrístico, do Credo de Santo Atanásio. Só existe um curso espiritual não degenerado, para a religião católica, e ele consiste na profissão da revelação cristã. A exposição da teoria das 12 camadas, portanto, explicitamente supõe uma falha retórica, e uma indiferença retórica típica do Prof. Olavo a respeito desse assunto do dogma da necessidade da fé; uma indiferença promovida por autores como René Guénon; Karl Rahner; Joseph Ratzinger; Joseph Clifford Fenton; e textos do Concílio Vaticano II como Nostra Aetate e Unitatis Redintegratio. A indiferença do Prof. Olavo a essa tese da necessidade da fé é tão altiva que embora tal indiferença influencie teorias como a presentemente examinada, ele alega que não tem nem o direito nem a obrigação de discutir a tese; e na verdade ele se atribui em aparência tais direito e obrigação ao ponto de nunca haver muito claramente reconhecido a existência dessa tese; sempre usando no tratar dela uma linguagem indireta e obscura.

Eu sou o primeiro a reconhecer no hinduísmo as mais nobres noções e formulações metafísicas, e o destacado haver sido injustiçado e caluniado por superstições modernas. Similarmente, os padres da Igreja reconheceram o valor cultural notável da literatura pagã clássica, cultura a ser preservada e integrada no cânon cultural cristão. Isso é diferente de reconhecer em tais tradições ou obras de valor cultural um valor degenerado marginal.

Um outro ponto digno de nota na teoria das 12 camadas, é que ela curiosamente não cruza as camadas com a teoria (ordinariamente incompreendida e injustiçada) das quatro castas do hinduísmo, que correspondem na Idade Média aos; clérigos; nobres; terceiro estado; servos. O desenvolvimento das camadas supõe, segundo a lógica interna aparente-verossímil da formulação teorética em questão, um valor crescente conforme cada camada é transcendida. A esse valor é relacionado explicitamente à ideia do passar da concentração (síntese) à divisão (análise), e vice-versa, ou passar por diferentes fases de um ou outro caráter. Entretanto, o servo medieval enquanto associado ao simbolismo ou marca batismal da indivisão, representa precisamente uma condição humana que se degenera precisamente ao tentar se diferenciar ou desenvolver. De forma que não é inequívoco, como a própria teoria assinala, que o curso das 12 camadas seja comparativamente expediente, quando colocado ao lado da indivisão simples e direta associável à 12 camada atingida imediatamente. A simplicidade e o estado de indiferenciação e não desenvolvimento; o qual estado aliás propicia o sentido da irmandade e coletividade da casta dos servos; não são essencial ou propriamente traços de condição inferior. São, ao contrário, um simbolismo aplicado e uma fórmula vital mais condensada, e precisamente aparentada à indivisão e concentração batismal. O servo de uma sociedade sacra, de modo reflexo ao batismo, ocasiona a infusão psíquica na sociedade em geral da ideia de gratificação suficiente da alma desde o plano da concentração. O servo torna aparente o ridículo, que Guénon observa nas pessoas de mentalidade moderna, de estar sempre apressado e afoito por acumular conhecimentos contingentes e secundários. Não se deve apressar por considerar comparativamente mais gratificados apenas certos indivíduos clericais e nobres, se o Catecismo de Trento, por exemplo, atesta como significativa a ideia de multidões (ou um grande número) terem sido purificadas e salvas pela fé cristã; o que, se infere, não pode significar exclusivamente, ou na maior parte, as castas mais elevadas. Escusado dizer que isso significa que muitos servos salvaram a própria alma, quando filósofos e estadistas como Hegel ou Lassalle (da 11 camada, a dos influenciadores da história humana), a perderam, entre outros, por não terem a fé cristã. Hegel rejeitou a comunhão com Roma, e só um soi-disant católico indiferentista religioso estaria inclinado a não o anatematizar.

Também esta última observação parece sugerir a não universalidade da teoria das 12 camadas; ou ao menos a precariedade da sua formulação retórica ordinária.

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Simbolismo dO Mágico de Oz

O livro O Mágico de Oz é carregado de um sentido esotérico de modo nenhum suficientemente aparente desde o seu resumo ordinariamente oferecido pela mídia profana. Isso sugere não apenas quão avançada parece estar a decadência da intelectualidade acadêmica refletida na mídia; mas em particular quão degenerada está a percepção pública da diferença entre a superfície (exoterismo) e o fundo (esoterismo).

A história americana fantástica, escrita, se não me engano, bem no início do séc. XX; é sobretudo uma meditação e um simbolismo do fenômeno político. Por isso, e necessariamente, é uma meditação da distinção entre o plano da intelecção e o seu derivado, o plano da manifestação. A ordem própria do plano da intelecção se reflete no plano da manifestação, e por isso este último depende do primeiro. É isso que a coroação do rei pelo papa significa. De modo conversível, a independência do plano da manifestação, este plano deixado a si mesmo e separado do plano da intelecção, significa a mutabilidade e a degeneração, como qualidades opostas à estabilidade e a conservação da ordem. Na lenda do Rei Artur essa degeneração é representada pela adversária do mago Merlim, uma bruxa que podia assumir muitas formas ou aparências conforme desejasse (mutabilidade); sendo a mulher um símbolo do transitório (gestação) e da matéria ansiando por uma forma (fertilização) ou instrução.

Assim, as bruxas perversas que reinam tiranicamente sobre o leste e o oeste do Reino de Oz significam o secularismo, isto é, a matéria sem forma, a manifestação apartada da intelecção.

O haver a garotinha Dorothy iniciado a narrativa com o inadvertido esmagar a bruxa perversa do leste (a sua casa sequestrada desde o Kansas por um tornado pousa sobre a bruxa) é um simbolismo muito interessante. A ideia de que o sol nasce no Leste e se põe no Oeste necessariamente alude à oposição entre o contato sintético inicial, e a subsunção sintética a posteriori. Ou seja, o esmagar a bruxa inadvertidamente é uma espécie de antevisão sumária do sentido da aventura no qual Dorothy iria inadvertidamente se engajar. Nesse sentido, o caráter inadvertido alude ao fato de a intelecção afetar a realidade e o plano da manifestação “como num passe de mágica” e de um modo em aparência “fora de controle” e fantástico, nisso significando o escopo avassalador do sutil e espiritual (“espírito” significa “vento”, do qual o tornado é uma expressão acirrada); e também alude ao fato de a atuação do “espírito” se dar através de um plano intermediador (a casa), que é o plano psíquico. A casa significa a intermediação entre o plano do espírito (tornado) e o plano sensível (relativo à manifestação enquanto apartada maximamente da intelecção) representado pela bruxa; porque uma edificação é um objeto sensível e material, mas ordenado desde uma disposição que transcende o plano sensível bruto. A casa também representa e expressa o “interior” do seu morador, nisso servindo adicionalmente como simbolismo do plano psíquico.

Se a casa (plano psíquico) é usada para esmagar a bruxa do leste, analogicamente a água, um notório e multimilenar símbolo do plano psíquico, é usada para derreter e derrotar a bruxa perversa do oeste.

O livro é muito extensivo e denso de simbolismo para ser integralmente examinado, mas ao menos alguns pontos parece expediente examinar.

Os companheiros que Dorothy acumula na sua jornada a Emerald City são três em número, e eles também simbolizam o mesmo grupo de três elementos supramencionado, o plano sensível, o plano psíquico e o plano espiritual, que no Oriente se chama “A Grande Tríade”, e em 1 João 5:8 “o sangue, a água e  espírito”.

O homem de lata, também chamado “lenhador de estanho”, se associa ao simbolismo do metal propriamente. O metal e o desenvolvimento da metalurgia simbolizam o fenômeno que René Guénon denominou “solidificação do mundo”, o uso crescente e moderno dos metais se associa à quantificação opressiva do mundo, e ao estreitamente do plano psíquico e espiritual, isto é, do qualitativo, como oposto ao quantitativo. Por isso os metais sempre foram vistos com desconfiança e como objetos “infernais” nas tradições, tal embutido inclusivo no simbolismo de se encontrarem em camada inferior do mundo visível. Entretanto, termos relativos possuem relação analógica, e portanto o metal achado “em baixo” possui uma relação analógica com o plano celeste; assim como o deserto terreno possui relação analógico-salvífica com paraíso celeste. Uma das explicações possíveis para a chamada “idade de bronze” que a arqueologia classificou desde muito, é que os utensílios de bronze suavizam a aparência infernal dos metais, lhes comunicando uma conotação celeste. “Bronze” significa “queimar”, segundo uma sugestão do Etymology Dictionary, e como tal possui uma conotação contingente de associação com o simbolismo do sol, que por sua vez é uma variação celestial do simbolismo do centro (suprassensível).

Ora, sucede que o estanho, o material de que o “homem de estanho é feito”, é precisamente um dos componentes do “bronze”, junto com o cobre. O “homem de estanho”, portanto, simboliza o plano sensível, dos três elementos da “Grande Tríade”; porque o plano sensível é o polo mais quantitativo dos domínios da realidade; e porque a união potencial do estanho com outros elementos na formulação de um simbolismo solar significa a unidade de fundo dos três elementos; o simbolismo solar representa a unidade, como também o centro. O homem de estanho deseja um coração, como meio de experienciar a felicidade, e o coração é associável ao simbolismo do centro, e em particular à faculdade de “queimar” (bronze) ou arder.

O espantalho se associa ao simbolismo do espírito. Em primeiro lugar porque o material de que é feito, a palha, é oposto ao caráter destacadamente quantitativo e “contável” dos metais. Por exemplo, um pedaço de palha pode se desfazer em um número maior de palhas sem advertência. De outro lado, o espantalho se associa à ideia de influência celeste; porque a sua aspiração e desejo por um cérebro veio de um pássaro, um corvo, que é um símbolo angélico. O pássaro é um símbolo angélico. Entretanto o corvo se opõe à pomba. Noé enviou o corvo primeiro para sondar se a terra firme estava novamente à mostra após o dilúvio, e o corvo não voltou. O corvo, como o estanho, portanto, é um símbolo celeste ambíguo; cujo valor é dúbio ou meramente potencial; assim como a tragédia simbólico-sintética do esmagamento da bruxa do leste foi um evento de dúbio valor; isto é, de valor profano na superfície, e sagrado desde o fundo.

O espantalho também se associa ao simbolismo do sol, de modo potencial, como o homem de estanho, porque os espantalhos são fixados em um posto ou estaca, um eixo vertical, que é um dos elementos do simbolismo solar associado ao polo terrestre.

O terceiro companheiro de Dorothy é o leão covarde. O leão é um símbolo solar mais direto, e isso é precisamente o motivo de ele ser o elemento intermediador entre a qualidade (espantalho) e a quantidade (homem de estanho). O leão deseja coragem, isto é, ele deseja a admissão e iniciação na bravura, que é conversível com a mortificação (a capacidade de sofrer sem se alterar). Ora, o deserto representa tanto a mortificação quanto, analogicamente, a água.  Enquanto não houver a mortificação (bravura ou deserto), não poderá haver a infusão purificadora da água.

Os três companheiros, portanto, representam de modo cômico ou potencial, que é o mesmo que dizer de modo dúbio, os elementos da iniciação. A protagonista também entra nesse simbolismo, porque o ser uma garotinha sem meios de ação, faz que só desde certo sentido dúbio; o mesmo pelo qual o metal pode ser considerado celestial (e não univocamente infernal); ela possa ser considerada um agente político associado ao simbolismo solar.

A comicidade e influência psíquica paradoxal da história; história apresentando como agentes políticos centrais, como príncipes, indivíduos com consideráveis desvantagens e carências; é uma inconfundível expressão do uso “octogonal” da transmissão de uma mensagem; isto é, é uma expressão da intermediação psíquica entre o plano sensível e o plano suprassensível do modo mais primitivo e fértil possível. A transição pela qual os personagens passam (no se associar comicamente ao profano e ao sagrado, à ignorância e ao conhecimento, ao baixo e elevado) é a transição que a narrativa efetua no leitor.

Dois elementos mais parecem interessantes de examinar. Um deles é que Oz, o chefe misterioso de Emerald City no centro do país, se revela no fim não um ser transcendente, mas apenas um homem engenhoso e dissimulador; e nisso expressa certa realidade; a qual no plano microcósmico pode significar a identificação das limitações intelectuais dos pais, dos superiores hierárquicos etc., ou pode significar por extensão analógica a formulação semi-involuntária de “ídolos” e convenções degeneradas, tendo a ignorância disseminada como causa. Pois sucede que era mais verdadeiro supôr Oz o refém dos cidadãos da cidade, e do senso de estabilidade das pessoas espalhadas pelo país, do que o contrário. O curso iniciático legítimo (Dorothy) alivia essa superfície ou fachada vazia, e dá nova vida e senso de possibilidade ao público. Uma expressão disso na política brasileira, obviamente, é que Olavo de Carvalho, que tomou o poder de modo avassalador “e como num passo de mágica”, expôs a impotência patética dos anteriores formadores de opinião e exercedores do poder, cujo prestígio e aparência de estabilidade pareciam “quase divinos”.

Por fim eu menciono os “macacos voadores”. Sem me estender muito (ou explicar o contexto detidamente), o fato de se associarem à capa de ouro já mostra que são associáveis a um simbolismo solar. Entretanto, o são como expressão remota ou eco, porque a capa os pode invocar. Os macacos são associados, por exemplo no árabe, à ideia de “presságio”, por exemplo por causa da sua comicidade, e da ambiguidade que a comicidade sugere ao sugerir simultaneamente o profano e o sagrado. Assim, eles se associam ao presságio como propriedade do plano psíquico intermediador, que vem do centro.

 

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O simbolismo da mortificação

A mortificação possui o caráter de um simbolismo, tanto na sua manifestação contingente, quanto na sua formulação mais geral. Em particular, a mortificação é a profissão do simbolismo da fênix, um renascer da própria “cinza”.

A esse respeito, se adiciona também o simbolismo do rosário como associado ao simbolismo da mortificação; porque as contas do rosário simbolizam o passar de um estado ou ciclo espiritual, para o seguinte; através de sucessivas “mortes e ressurreições” espirituais.

A consumação total da cadeia de ciclos, na sua correspondência com a cadeia de possibilidades ontológicas, significa a consumação de todos os estágios de contato mais ou menos perfeitos com o “centro” e com o sentido da inalterabilidade e perfeição divinas; assim como há diferentes ordens angélicas, mais ou menos afastadas do centro no plano celeste.

A expressão mais concreta e simplificada da mortificação, assim, de certo modo guarda latente todo o ciclo de mortes e ressurreições até a consumação da unidade; de modo que na mortificação bem começada, ou dignamente iniciada, há uma imagem ou antevisão sintética de uma bem-aventurança. Por exemplo, na providência desde a qual o Moisés recém-nascido foi salvo da perseguição egípcia passando por situação aflitiva e delicada, está prefigurada a sua missão religiosa futura. Esse é também o fundamento desde o qual a devoção mariana é considerada tão importante; a dedicação consagrada da Virgem Maria à contemplação e a uma submissão atenciosa no se instruir do Filho, faz com que o imaginar tal e se fixar em tal adquira o caráter de deixar que tal rememoração sirva como um prefiguração sintética do rumo do próprio devoto mariano.

Assim, se enganam os infiéis que imaginam consigo que o “trabalho do negativo” é uma propriedade da irreligião, como oposta à religião. Em primeiro lugar porque a “negação”, conversível com a ideia de mortificação; no seu sentido mais elevado; nada mais é do que uma “construção” e um curso positivo ou rumando para a posse positiva de algo não antevisto de todo. Se os ateus realmente possuíssem um papel significativo no “trabalho do negativo”, eles não seriam tão notoriamente, até aos seus próprios olhos, vazios no edificar o que quer que seja. A negação que é típica dos infiéis e dos pseudo-espiritualismos modernos é uma negação supra-consciente, que mais acomete eles como um mistério adventício que os confunde e os esmaga com indiferença; do que se lhes apresenta como uma escolha ou curso viável. A sua “negação” sendo na verdade uma admissão involuntária, nada mais é ela do que uma “negação” pejorativa; o que faz com que tudo quanto creiam edificar também termine por se mostrar uma expressão pejorativa da ideia de edificação.

Assim, os empecilhos ao curso iniciático são conversíveis com a ideia de empecilhos ao curso da “destruição” (e da “edificação” na sua esteira). E para adquirir a perfeição própria do “ponto médio” aristotélico; é necessário precisamente ser capaz de destruir. Ora, o plano iniciático intermediador entre o mundo terrestre e o mundo celeste é o plano psíquico; e portanto a mortificação necessita ser fundada no que é próprio desse plano intermediador. Uma das propriedades desse plano é precisamente não ser univocamente aludidor do sensível, nem do suprassensível mas de uma mistura desses dois domínios. As mortificações necessitam, por isso, se associar inicialmente ao que é esquemático e palpável. Por exemplo, a Quaresma de São Miguel, um evento do calendário com data prefixada, uma série de convenções (como o ascender velas ante a imagem de São Miguel etc.), é precisamente uma dessas expressões psíquicas da intermediação iniciática.

A mortificação sob o aspecto da “destruição” pode se associar ao plano psíquico intermediador, por exemplo; quando alguém que exagera em uma sobremesa (por exemplo um bolo de chocolate) usa como gesto simbólico o jogar no lixo o bolo a despeito de poder ser consumido por outrem, ou em ocasião ulterior. A capacidade de ousar coisas assim cria ou edifica, abrindo um campo de possibilidades que não existia anteriormente.

A associação de gestos simbólico-rituais intermediadores com a iniciação própria do campo psíquico intermediador, é precisamente o escopo dos “pequenos mistérios” que são típicos da nobreza; e que são precisamente a iniciação ordinária que os clérigos dirigiam à nobreza medieval (isto é, que os clérigos dirigiam aos homens de ação).

A ciência da mortificação é um campo de estudos no mais alto grau útil e profundo, também fértil de possibilidades. Isto é, o exame da mortificação como tornado esotérico ou detalhado de modo extraordinário, pode constituir uma grande vantagem esotérica para os fiéis.

Dois livros me parecem oferecer um método para tornar um assunto como este esotericamente detalhado. Os Tópicos, de Aristóteles, que em última instância deve ser lido com a trilogia ética (Retórica, Política e Ética a Nicômaco); e o livro do expert em Aristóteles Émile Boutroux, A Contingência das Leis da Natureza. Eu não li esses livros (Tópicos e A Contingência) integralmente, especialmente do segundo li pouco; mas me parece que estão no centro desse assunto; isto é, a conversão do exotérico no esotérico, da superfície no fundo. [Livros espirituais, como o Guia do Pecador, Luiz de Granada; estão entre as opções esotéricas dentro do assunto, e de modo direto.]

Em adição a isso ocorre-me um assunto interessante; que é o fato de se não poder contar com os meios de “destruir” o que quer que seja; em certas situações de discurso. Por exemplo, na circunstância político-religiosa mundial de hoje a crítica da inconsistência e da heresia de líderes e formadores de opinião, embora uma obrigação relativa à profissão de fé; tem o seu efeito intencional comprometido pela degradação intelectual geral. De fato, alguns problemas são fáceis de resolver por meio do “trabalho do negativo” quando principiam e estão distantes de alguma acumulação ameaçadora; mas quando se acumulam a indignação ante a sua expressão concreta particular assemelha-se a tapar os buracos miúdos de uma represa que está em pleno desmoronamento.

Em circunstância assim, como a político-religiosa mundial de hoje, é preciso admitir que não há uma unidade viável a ser  claramente promovida senão a da consciência suprassensível solitária do fiel sendo purificado pelo contato com a instrução filosófica. Em tal circunstância a noção passada de política, como um campo no qual há certa uniformidade social cristalizada que é o centro desde o qual a profissão de fé é realizada e exercitada; tal noção é inteiramente inviável. Porque, não havendo iniciação, não há líderes intelectuais cuja linguagem e intercâmbio dê ocasião a uma expectativa pública estável e atenta a intermediações diplomáticas. Não há pontífices, e submissão modesta a eles. Há apenas indivíduos especializados em áreas acidentais à iniciação, ou insuficientemente adentrando nela; e há indivíduos iniciados, em número reduzidos, que seja não possuem instrução ou vocação contemplativo-clerical; seja não possuem tempo, recurso e contato extensivo desde o qual formular em comum estereótipos estáveis e viáveis.

Em tal circunstância o “trabalho do negativo”, termo que eu sequestro e modifico dos frankfurtianos; só pode ser levado a cabo desde um esforço solitário e constituidor de uma sociedade meramente hipotética; e não desde a admissão em sociedade. Sob esse aspecto, para melhor ser levado a cabo, esse trabalho negativo necessita, sob certo aspecto “ilusório”, promover e admitir os meios sociais que pretende transcender; porque não há outro modo, de todo, para sondar a extensão da ignorância alheia e a abordagem retórica que outrem requer.

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